quinta-feira, 19 de março de 2026

Israel & EUA vs. Irão: um conjunto de notícias curiosas publicadas nas últimas 48 horas...


       Como os caros leitores deste blogue devem ter reparado, eu ainda não me pronunciei acerca da guerra movida recentemente por Israel e pelos EUA contra o Irão. O motivo pelo qual eu ainda não me pronunciei é muito simples: a esmagadora maioria dos que falam ou escrevem sobre o assunto nas televisões e nos jornais têm-se limitado a dar palpites, geralmente palpites vincada e descaradamente ideológicos, sem fazerem a mais pálida ideia nem do que se passa no terreno, nem no que se passa nos gabinetes dos dirigentes e diplomatas envolvidos. 
 
Isto significa que ainda não temos dados objectivos para nos pronunciarmos sobre o conflito, pelo menos, para já. Quem disser o contrário é movido por ideologia, não por matéria de facto. É verdade que o regime dos aiatolas é de uma brutalidade, de injustiça e de uma opressão absolutamente condenáveis. Mas os governos dos EUA nunca se preocuparam com o bem-estar dos iranianos no passado, pelo que é francamente duvidoso que tenham começado a preocupar-se agora. O que nos leva à pergunta: os EUA estão a atacar o Irão porquê, exactamente?
 
Respostas há muitas e para todos os gostos. Eu ainda não me vou pronunciar, porque entendo que ainda não há uma resposta definitiva. Vou apenas deixar aqui estas quatro notícias que foram publicadas nas últimas 24 horas e que, a meu ver, apontam num determinado sentido, mas ainda não permitem chegar a conclusões.
 

Notícia #1: Conselheiro da Segurança Interna dos EUA acusa Witkoff e Kushner de mentirem sobre negociações com Irão 

«David Pyne, director-adjunto executivo da task force sobre a Segurança Interna dos Estados Unidos da América, acusou o enviado especial da Casa Branca, Steve Witkoff e Jared Kushner, o genro de Trump, que estiveram na Suíça na última ronda de negociações com Teerão sobre o pacote nuclear, no final de Fevereiro, de mentirem a Donald Trump sobre as conversações com o ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão, Abbas Araghchi. 
“O Irão fez-nos uma óptima proposta e Witkoff e Kushner mentiram, alegando que o Irão se recusou a fazer uma proposta de paz decente e aconselharam Trump a rejeitá-la e a entrar em guerra, a pedido de Israel. Ambos deviam ser demitidos, juntamente com Susie Wiles, Rubio, Radcliffe e todos os outros falcões neoconservadores que instaram o Presidente a iniciar a sua nova guerra sem fim no Irão”, lê-se numa publicação na rede social X do veterano do Exército dos EUA que, como líder da task force, assume o papel de conselheiro do Departamento de Segurança Interna. “Israel forçou o Governo Trump a iniciar uma guerra impossível de vencer contra o Irão, na ausência de qualquer ameaça aos EUA”, escreveu o conservador do movimento America First e assumido apoiante das visões anti-intervencionistas de J. D. Vance (apesar de, neste caso, o vice-presidente apoiar o ataque ao Irão.»


 
«O conselheiro nacional de segurança do Reino Unido, Jonathan Powell, que participou nas negociações finais entre os Estados Unidos e o Irão sobre o programa nuclear iraniano, considerou que a proposta apresentada por Teerão era suficientemente significativa para evitar um conflito armado. As negociações tiveram lugar em Genebra, na Suíça, no final de Fevereiro e a proposta iraniana foi descrita como “surpreendente”. 
A proposta iraniana não representava ainda um acordo final, mas demonstrava progressos claros. O Irão mostrou-se disponível para aceitar restrições permanentes ao seu programa nuclear, sem prazos de expiração, e comprometeu-se a reduzir o seu stock de urânio enriquecido sob supervisão internacional. Teerão também admitiu uma pausa de três a cinco anos no enriquecimento interno, embora os Estados Unidos tenham exigido uma suspensão de dez anos. 
O acordo também incluía benefícios económicos, com a possibilidade de participação norte-americana num futuro programa nuclear civil iraniano, em troca do levantamento de cerca de 80% das sanções económicas impostas ao país.»

 

Notícia #3: os Serviços Secretos dos EUA desmentiram o Presidente Trump

«Os serviços de informações norte-americanos concluíram que o Irão não tentou retomar o programa de enriquecimento nuclear, destruído nos ataques dos Estados Unidos e de Israel em 2025, contrariando as justificações da Casa Branca para a guerra.

A avaliação foi apresentada por escrito pela directora dos serviços secretos, Tulsi Gabbard, numa audição no Senado dos EUA. Segundo o documento, “não foi feito qualquer esforço” por parte de Teerão para restaurar as capacidades de enriquecimento nuclear desde os bombardeamentos realizados em Junho do ano passado, acrescentando que as instalações subterrâneas atingidas foram seladas.

O Presidente norte-americano, Donald Trump, tem justificado a intervenção militar com a alegada existência de uma “ameaça nuclear iminente” por parte do Irão, sustentando que o programa teria sido “aniquilado”.»

 

Notícia #4: "Washington e Israel têm objectivos distintos"

«A directora dos Serviços Secretos dos Estados Unidos, Tulsi Gabbard, afirmou esta quinta-feira [19-Mar-2026] que Washington e Israel têm objectivos distintos no conflito sobre o Irão e que os EUA não estiveram envolvidos no ataque israelita a uma reserva de gás iraniana.

Gabbard clarificou que os objectivos do Governo do Presidente Donald Trump passam por destruir a capacidade do Irão de lançar e produzir mísseis balísticos, bem como neutralizar a sua Marinha e a capacidade de minagem.

A responsável dos Serviços Secretos disse desconhecer a posição do Governo do primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, quanto à possibilidade de um acordo com Teerão.

Gabbard afirmou também não dispor de informação sobre as motivações que levaram Israel a atacar o campo de gás de South Pars, o maior da República Islâmica, sublinhando que os Estados Unidos não foram previamente notificados.» 

Sem comentários: