Vale a pena ler o comentário do historiador Rui Ramos sobre tudo isto:
«Como pôde um director da PJ achar boa ideia empregar numa obra particular um empresário com contratos de milhões com a PJ e fazer-se “amigo” dele? Nunca lhe ocorreu que esse tipo de relação entre o dirigente de uma instituição pública e um dos seus fornecedores pudesse suscitar suspeitas de troca de favores? Como pôde um ministro da Administração Interna passear pelos ecrãs a contar histórias que a imprensa pouca dificuldade teve em desmantelar, ao mesmo tempo que se negava majestaticamente a partilhar os únicos documentos capazes de limpar um pouco as nuvens de desconfiança que se acumulavam sobre a sua cabeça? Não percebe que, nestas situações, é fatal parecer que se está a contar mal as coisas ou que se tem algo a esconder?
(...)
O caso, de tão estranho, obriga-nos a deixar a pessoa de Luís Neves, e a passar a questionar o meio em que isto foi possível. Que se passa com o que poderemos chamar a “classe dirigente” portuguesa, isto é, com os políticos e os altos funcionários do Estado, entre os quais os governantes são frequentemente recrutados em Portugal, como no caso de Luís Neves? Haverá por ali demasiada gente com o sentimento de impunidade de uma casta superior, e por isso desleixada em relação a regras e a cuidados elementares? Ou certos aproveitamentos pessoais tornaram-se tão comuns, tão banais, e por isso tão insignificantes para quem os pratica, que já não passa pela cabeça de ninguém, mesmo dos mais probos e cautelosos, coibir-se ou precaver-se? Tudo é possível, quando vemos que Luís Neves é possível.»


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